Parte III
Por Fábio Bentes Freire
09/04 – FEIRA EM LAGOA DO OURO
Dia
de feira em Lagoa do Ouro, feira grande, ocupando praticamente todo o centro da
cidade com barracas vendendo desde carnes, castanhas de caju, frutas, até
roupas e eletrônicos.
A
visita à feira levou boa parte de nossa manhã e foi fundamental para que eu
definisse o cronograma de todas as oficinas que dependem de resíduos para
acontecer. Vamos fazer uma coleta, em julho, no primeiro dia de feira durante
nossa permanência em Lagoa do Ouro. Antes disso, teremos um bate-papo com o
público sobre resíduos e reciclagem. Como eu disse antes, tudo se encaixando o
melhor possível dentro da realidade que iremos encontrar e do público que
queremos atingir.Nesse dia, troquei vários torpedos com a Paulinha, buscando
envolver nossa equipe na definição das oficinas.
Mas
o grande acontecimento do dia foi a chuva, que caiu forte na hora do almoço. A
tão esperada e comentada chuva veio e era aclamada por pessoas na rua, ouvi, do
meu quarto, várias pessoas agradecendo a Deus pela chuva que caía abundante,
mas ainda insuficiente para contornar os estragos da longa seca. Dava para ver
pessoas andando na rua, como se a chuva não molhasse. Passada
a chuva, pouco depois das 14:30, fomos visitar Campo Alegre, cerca de 20
minutos de Lagoa do Ouro, e a escola da comunidade. Gostamos de tudo, da
escola, das pessoas e, principalmente, do envolvimento de todos com o projeto.
Ganhei, de uma Senhora, um saco de biscoitos salgados típicos de lá, junto com
um belo sorriso e um “vá com Deus meu filho”. Por onde passamos fomos muito bem
recebidos. A noite, já de volta à pousada, Edneia e eu batemos o martelo e
fechamos nossos cronogramas, com todas as atividades, horários, tempos de
duração, público,... Exausto, jantei, li um pouco e dormi antes das 9:00.
10/04 – ÚLTIMO DIA DA PRECURSORA EM LAGOA DO OURO
Choveu
a noite toda. Depois do café da manhã, fomos até a prefeitura entregar nossos
cronogramas para divulgação das atividades. Ouvimos de Várias pessoas,
brincando com a gente, “vocês do Rondon trouxeram a chuva, Deus abençoe
vocês!”. No prédio da prefeitura o estrago tinha sido grande, havia muitas
goteiras em cima de mesas, micros, documentos, mas as funcionárias já estavam
regulamentando tudo e controlando a situação. No centro da cidade, a caminho da
prefeitura, havíamos visto lojas com mercadorias molhadas e casas de
particulares com portas abertas e gente varrendo sujeira para fora.
Definitivamente, os telhados não estavam preparados para a chuva que caiu. Deixamos
os cronogramas com a Suely, missão cumprida. Todos os objetivos da precursora
haviam sido alcançados. Tudo acertado para nossa participação em julho. No começo da
tarde, Edneia e eu fizemos uma romaria pela prefeitura e outros lugares que
passamos para nos despedir das pessoas. Acertamos ainda detalhes de uma ou
outra oficina. Feito isso, Edneia voltou para a pousada e eu decidi sair
sozinho para uma caminhada, queria tirar fotos de alguns lugares por onde
havíamos passado somente de carro. Ter ido sozinho acabou sendo uma ótima. Segui
um caminho que passava em frente à Escola Jandira Pedroso, em direção ao final
da cidade, de onde era possível avistar um monte rochoso muito bonito. Atravessei
uma cerca de arame farpado (ah se eu tivesse uma bola de cristal naquele
momento!) e caminhei uns 800 m
até uma árvore meio isolada no meio da paisagem. Dizem que o mais importante de
uma fotografia é o “olhar” de quem está por trás da câmera, depois vem a
técnica. Pois tive um insight, quando vi a árvore, de que subindo nela eu faria
uma foto interessante. Sem jeito nenhum, subindo de galho em galho, cada vez
mais alto, fui buscando o ângulo que eu queria, totalmente despreocupado com a
“escalada” em si. A
mais ou menos uns 3 m
de altura (ainda pretendia subir mais alto), resolvi fazer uma selfie para que
me vissem, mais tarde, em cima da árvore. Bom, vamos lá. Tirei o smartphone do
bolso, preparei a câmera dele, apontei para mim e sorri. Tudo aconteceu tão
rápido que não sei nem o que escrevo aqui, o fato é que o galho que eu segurava
para me apoiar quebrou (acho que me inclinei demais para o lado dele) e eu
despenquei de lá de cima, meio de frente, meio de lado, e dei com a cara no
chão. Ninguém viu. Foi um baita susto, de um segundo para o outro, me vi no
chão, sem óculos (ainda bem, ele teria cortado meu supercílio e, no passado, já levei 7
pontos nessa região) nem smartphone. Levantei sem dores, mas achando que havia
quebrado um dente. Alarme falso, ainda bem, era só terra na minha boca. Achei
meus óculos e o smartphone, sem a parte de trás e sem a bateria. Precisei
procurar por pouco tempo para achar a capinha de trás, mas levei uns 20 minutos para
encontrar a bateria. Nessa busca, lembro-me de ter olhado para a árvore com um
certo rancor, como se ela tivesse sido a culpada pela minha queda. Recomposto,
meio dolorido e fulo da vida, sem mais vontade de tirar foto alguma, voltei
caminhando para a pousada da Jaque. No caminho, dois rapazes que lavavam um
carro olharam para mim e disseram “tem sangue no seu nariz”. Limpei o nariz com
a mangueira de água que eles usavam, mais para apagar as evidências do tombo do
que outra coisa. Em julho eu volto lá e tiro a foto.
11/04 – RETORNO À RECIFE
Despedidas
em Lagoa do Ouro, começando pela pousada onde fomos acolhidos como família.
Tomamos um café da manhã especial, às 06:30, preparado para nosso “até breve”. Comi
um monte. Às 08:00 já estávamos na prefeitura recebendo calorosas saudações dos
funcionários. Todos haviam feito um ótimo trabalho, com muito calor humano,
fechamos com chave de ouro nossa viagem precursora a Lagoa do Ouro. Saldo mais
do que positivo da precursora, com uma cidade completamente receptiva e
favorável ao Rondon, dois coordenadores que se deram muito bem e querem muito
fazer pela operação. Deixamos a cidade às 08:20, de novo conduzidos pelo Sr
Luciano, fazendo o percurso de volta à Recife e pegando os outros colegas
coordenadores pelo caminho.Na van, confraternizamos e trocamos nossas
experiências, felizmente, todas boas. Chegamos à Escola de Aprendizes pouco
depois das 15:00, almoçamos imediatamente (a van já nos deixou direto no
restaurante) e depois, cada um seguiu um rumo, em grupos ou não. Eu fui sozinho
para o alojamento, dormi até umas 16:40 e em seguida dei uma corridinha em
volta de um campo de futebol. Barbudo e com uma camiseta da São Silvestre de 2011,
chamei um pouco a atenção dos alunos que por ali se exercitavam. À noite,
fizemos uma rápida reunião com os comandantes da operação que queriam ouvir
nossas impressões. Uns reclamaram, outros elogiaram as prefeituras, mas foi
unânime o sentimento de dever cumprido. Mais tarde, no jantar, combinamos uma
saída para curtir a noite em
Olinda. A sugestão de quem conhecia bem a cidade foi a
Fábrica Bar, na Praça Fortim. Fomos em 5 táxis e nos divertimos muito. Saí de lá em
um táxi, com um colega da UFES, às 03:00, como há tempos não fazia.
12/04 – RETORNO DA PRECURSORA
Boa
parte dos coordenadores deixou a Escola de Aprendizes às 04:30, em um ônibus da
marinha. Um caminhão baú, que ia logo atrás do ônibus, levou nossas bagagens
até o Aeroporto Guararapes. Despedi-me rapidamente de todos na chegada ao
aeroporto e fui direto para a área de embarque de onde sairia meu vôo, às
07:55. Voltei sentado na janela, ao lado da Nadia (USP de Ribeirão) e do Moacyr
(USP de São Carlos), conversando da decolagem em Recife ao pouso em São Paulo, com escala em Salvador. Fomos
cumprimentados pelas aeromoças que perguntaram bastante sobre o projeto Rondon.
Em São Paulo,
na saída do aeroporto, um motorista com plaqueta de identificação escrita
“UFSCar” me aguardava. Dessa vez, o pouco que conversei com o motorista foi
durante o trajeto do desembarque até o carro, um Etios sedan prata. Alojei-me
no banco da frente, apertei os cintos e apaguei, só acordando, com uma mãozinha
do motorista, no trevo de São Carlos.