Parte II
Por Fábio Bentes Freire
06/04 – SAÍDA DE SÃO CARLOS
À
00:30 do dia 06/04/2014, um Toyota Corolla prata, à serviço da universidade, foi
me buscar em meu prédio para me levar até o Aeroporto Internacional de Cumbica
onde eu, às 06:30, embarcaria num voo da Avianca para Recife. No carro, de
imediato iniciei um bate-papo com o Sr. Paulo, o motorista, esquecendo que se
tratava de um profissional e que não precisava de ninguém para mantê-lo
acordado. Minha vontade era dormir. O fato é que a conversa não chegou nem ao
pedágio do Castello, acho que caí no sono depois do primeiro zigue-zague na estrada e
só acordei com a iluminação do aeroporto na minha cara, às 03:00. No aeroporto,
logo após passar pelo embarque, abri o caderno de notas e escrevi “3:32 - estou
um bagaço”.
A
espera foi longa, só embarquei às 06:05, e entre um cochilo e outro, eu rascunhava
as linhas que agora compõem esse texto. Enfim, o voo partiu de São Paulo sem
atrasos e, após a escala em Salvador, cheguei à Recife às 10:35. Sonado que só,
não notei que bem ao meu lado no avião viajou um senhor com a camiseta do
Rondon. Mais tarde vim saber que esse senhor é uma lenda no Rondon, com
participações em diversas edições desde a década de 70. Seu nome, Carlos Roberto , professor da UNESP de Araraquara.
Fui
o 1º passageiro do voo (que na realidade era para Petrolina, com escalas em Salvador
e Recife) a sair no desembarque (raramente despacho bagagens, meu histórico com
bagagens extraviadas é péssimo) e de cara avistei militares da marinha em
impecáveis uniformes brancos e um senhor entre eles, vestindo uma camisa do
Rondon. Era o Cmte Anderson, responsável pela Operação Guararapes e com quem
havia trocado e-mails. Me aproximei do grupo, me apresentei e recebi um forte
aperto de mão de um militar bem alto e com voz forte de barítono. Em altos
decibéis o Cmte Guimarães me congratulou “você começou bem, só trouxe o
essencial”. Na verdade, mais tarde me dei conta de que viajei com um item a
menos do que o essencial para pernoitar na Marinha: meia usada virou a toalha
que eu havia esquecido de pôr na mala no meu primeiro banho por lá.
Sorridente
por fora, mas me sentindo sonado e faminto, acompanhei o grupo de militares e
mais 15 coordenadores de equipes, que vieram no meu vôo, até um ônibus da
Marinha que nos esperava na área externa do desembarque do Aeroporto
Guararapes. Logo fui conhecendo ou reconhecendo os “marinheiros de primeira
viagem” como eu, uns cinco dentro do ônibus. Isso me relaxou, eu não era o
único.
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| Prédio principal da Escoa de Aprendizes da Marinha |
Mas
o que mais me chamou a atenção no caminho do aeroporto até a Escola de Aprendizes
da Marinha, em Olinda, foi ter escutado uma ou duas vezes alguém dizer “TUSCA”,
dentro do ônibus. Havia outro “sãocarlense” no ônibus, o Moacyr, professor do
ICMC da USP de São Carlos. Pouco antes das 12:30 o ônibus passou pela entrada
da Escola de Aprendizes da Marinha, em direção ao alojamento dos aprendizes. Na
escola, ficou claro que o Rondon havia começado para mim e um bom começo seria
interagir com os demais coordenadores, mas a fome era tanta que nem voz eu
tinha. Sou um glutão, apesar de não ser gordo. Saí do ônibus atropelando os
passos, entrei com minha mochila (minha única bagagem) no alojamento e, num amplo
cômodo branco com ares de Nosso Lar, encontrei um mar de treliches e
ventiladores.
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| Um dos cantos do alojamento com os treliches |
Como
alguns coordenadores haviam chegado à véspera, a única opção restante era me
alojar na “cobertura” dos treliches que, por sinal, não tinham nem aquela
escadinha estreita que eu tanto xinguei nas vezes que me hospedei no Ibis
Budget. Acho que fiquei olhando com cara de desolação para o topo do treliche
por alguns minutos até que alguém (não lembro quem) chegou perto de mim e disse:
“tire o colchão do topo e coloque no chão, é mais seguro para quem não está
acostumado a dormir em beliches”. Ótima ideia, larguei o colchão no chão, botei
a mochila em cima dele e me juntei a outros que se dirigiam ao restaurante dos
oficiais.
No
restaurante, quando comecei a derrubar o 3º prato, já me sentia civilizado de
novo e passei a conversar, mais empolgado, com os colegas coordenadores e
militares da operação que se encontravam à mesa. Nesse ambiente de
confraternização, havia muita solidariedade entre os coordenadores, os mais
experientes passando orientações para os menos experientes que, como eu,
prestavam atenção. É verdade que, nesse ponto, minhas conversas ainda estavam
meio protocolares, tenho hábitos diurnos e a noite mal dormida havia me drenado
a disposição, mas, apesar do cansaço, eu estava bem à vontade com aquelas
pessoas. Terminada a última garfada, fui para o alojamento e me esparramei no
colchão. Dormi antes mesmo de pensar em qualquer outra coisa.
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Navio escola – Escola de Aprendizes da Marinha (Olinda/PE) |
Palestra
com o Cmte Anderson, coordenador da Operação Guararapes às 16:30. Minhas
anotações dessa palestra vão desde orientações diretas para a viagem precursora
às cidades, até lembretes de coisas que eu teria que levar na operação
propriamente dita,em julho, como, por exemplo, “saco de dormir” e “canivete
suíço”. Achei graça quando o Cmte nos disse que precisávamos ter um grito de
guerra para a cerimônia de abertura das operações em julho. Em um determinado
momento, o Cmte pediu para que nos identificássemos em voz alta quando ele
dissesse o nome da cidade onde iríamos atuar. Quando ouvi “Lagoa do Ouro”, falei
“Fábio, Universidade Federal de São Carlos” e em seguida ouvi o comentário “A
UFSCar está sempre no Rondon”. Muito do que foi falado eu já sabia, pois na
semana anterior à viagem, havia conversado com o Prof. Sérgio do Departamento
de Ciência da Informação da UFSCar, quatro vezes no Rondon. Em um encontro com nossa
equipe (Gabriela, professora do DEQ, e os alunos Letícia, Paula, Rodrigo e
Vinícius da EQ, Michaela do DEMa, Marcela da Gestão Ambiental e Lucas e João da
EP), o Sérgio assistiu a uma apresentação dos alunos e me deu várias
orientações sobre o que era importante e como proceder na precursora. Ao
término da palestra do Cmte Anderson, conheci o “anjo” (militar) que irá nos
acompanhar em julho, o Munis, peguei meu colete amarelinho do Rondon (tamanho
GG!) e conversei, por alto, com a Edneia, professora da Univali (Itajaí, SC)
que também irá para Lagoa do Ouro com sua equipe (uma professora e oito
alunas), dentro do conjunto A de ações.
Antes
do jantar, dei uma volta pela Escola de Aprendizes juntamente com outros
coordenadores e tirei algumas fotos, como a do navio escola. Jantar servido às
19:30, comi só dois pratos, voltei para o alojamento e lá pelas 09:00, dormi.
07/04 – VIAGEM PARA LAGOA DO OURO
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| Coordenadores, Cmtes e o dedo da Edneia na partida para as cidades |
Logo
após o café da manhã no restaurante dos oficiais, juntamos nossas bagagens em
frente ao alojamento (masculino – térreo e feminino – 1º andar) e começamos a
entrar nas vans, sete no total, que partiam para as cidades. Como Lagoa do Ouro
era uma das cidades mais distantes da sede (Recife), parti na 1ª van que deixou
a escola, às 07:00 em
ponto. Conduzidos pelas mãos seguras do Sr Luciano, éramos,
no total, 8 coordenadores nessa van, com destino a quatro cidades do Agreste:
Canhotinho, Palmeirina, Correntes e Lagoa do Ouro, última parada. Sentei-me no
banco da frente da van, entre o Sr Luciano e Syndinara, professora de
Inconfidentes (MG).
Levamos
mais de uma hora e vinte só para sair da grande Recife, em pleno horário de pico.
Eu já conhecia Recife de viagens anteriores, mas não havia passeado por aquelas
bandas. Passamos bem próximos à Arena, que irá sediar jogos da copa. Após
sair da região metropolitana, seguimos por uma pista dupla, passando por
cidades como Pombos, Bezerros e Caruaru, numa paisagem cada vez mais com cara de
agreste. Gosto muito de viajar e a paisagem que eu via no trajeto até Lagoa do
Ouro era, para mim, uma novidade. Só conhecia parte do litoral do
nordeste.
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| Caminho de ida para Lagoa do Ouro |
A
viagem foi muito agradável, o clima entre nós era muito bom, seguimos o tempo
todo em segurança, sem sustos. Fizemos uma parada para ir ao banheiro e a
segunda já foi na cidade de Canhotinho, onde dois coordenadores desceram. Sem
GPS, mas com a boa vontade e simpatia do povo que nos explicava o caminho,
fomos encontrando as direções até as cidades e prefeituras,onde íamos descendo.
Em Palmeirina ficaram mais dois, depois mais dois em Correntes e, finalmente,
em Lagoa do Ouro, após14 km de estrada de terra, chegamos eu e Edneia, na porta
da prefeitura. Era 13:00.
Recebidos
na prefeitura pela Gilma, fomos levados ao encontro de Suely, nosso contato em
Lagoa do Ouro. Após uma rápida conversa, ficou decidido que só teríamos nossa
primeira reunião com funcionários da prefeitura no dia seguinte. Queríamos ter
as conversas iniciais logo de imediato, mas a decisão de deixa-las para o dia
seguinte mostrou-se adiante mais do que acertada. Com nossas bagagens,
caminhamos pelo centro de Lagoa do Ouro até a pousada da Jaqueline, onde nos
hospedamos nos cinco dias que passamos por lá. No caminho, de cara tomei a
decisão de tirar uma das oficinas propostas por nossa equipe: o centro da
cidade era bem bonito e cuidado, não precisava de revitalização.
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| Paróquia de Lagoa do Ouro |
Deixamos
nossas coisas na pousada e saímos para uma caminhada pela cidade usando o
famoso coletinho amarelo do Rondon. Era como um magneto, atraindo a atenção das
pessoas para os dois estranhos que caminhavam pelas ruas conversando e tirando
fotos.Passamos pelo hospital da cidade, entramos e tiramos algumas dúvidas
sobre oficinas da Edneia. À noite, jantamos na pousada e conhecemos melhor a
Jaqueline que, nos dias seguintes, preparou as refeições sempre nos consultando
sobre o que queríamos comer. A grata surpresa da noite foi Alexya, filhinha da
Jaqueline, uma linda e simpática menina de um ano e meio que nos cativou com
sua esperteza e simpatia. “Espero revê-las”, anotei no caderno.
08/04 – PRIMEIRO DIA EM LAGOA DO OURO
Logo
após o café da manhã, seguimos até a prefeitura para nossa reunião agendada com
as secretarias de saúde, educação e cultura. Assim que entramos no prédio da
prefeitura fomos avisados: “já estão comentando vocês”.
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Eu e Edneia com os coletes e funcionários
da prefeitura |
Nosso
passeio pelas ruas da cidade no dia anterior já era comentado e o comentário
chegou à prefeitura. Lagoa do Ouro já havia sido agraciada com um Rondon na
década de 70 ou 80 (não consegui descobrir) e os antigos lembravam disso com
bastante entusiasmo e carinho. Quem nos contou esse fato foi o Sr José,
funcionário da prefeitura há mais de quarenta anos, que aparece na foto. A
reunião comandada por Suely (ao lado da Edneia na foto) foi uma das mais
produtivas que já participei em meus quase dez anos de magistério. Falante e
bem articulada, ela encaminhou as discussões sobre hospedagens, logística,
transporte, oficinas... e em pouco mais de uma hora, havíamos feito
praticamente toda a lição de casa prevista para a viagem precursora. Conhecida
e respeitada, Suely me pareceu aquele tipo de pessoa que faz acontecer, sem
ficar filosofando muito. Quando mostrei nosso plano de trabalho, recebi um
único comentário: “está tudo bom, menos essa oficina sobre aterros sanitários,
nosso lixo é transportado para fora daqui. Seria mais interessante que vocês
incluíssem algo sobre uso de agrotóxicos”. E assim, com meia dúzia de palavras
trocadas, estava praticamente definido nosso plano de trabalho. Nem foi
necessário falar muito durante a reunião. Eu, pelo menos, fiquei mais tempo quieto
e ouvindo.
Da
reunião, ficou decidido que iríamos fazer as oficinas em quatro escolas. Na
Escola Jandira Pedroso, em Lagoa do Ouro, e em outras três (não me lembro o
nome), nos distritos de Iguapós, Mocós e Campo Alegre, todos da zona rural. Faltava
conhecer pessoalmente esses lugares e em especial o Centro de Idosos, onde nos
foi sugerida a hospedagem durante o Rondon. Terminada a reunião, com direito a
pipoca e cafezinho, rumamos para o Centro de Idosos. Ao chegarmos lá, essa
opção de hospedagem foi imediatamente aceita, o lugar era amplo, tinha cara de
casa (e não de alojamento) e possuía toda a infraestrutura necessária para receber
os quatro docentes, dezesseis alunos e um“anjo”.
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| Centro de Idosos |
Como já era horário de almoço, comemos a merenda no próprio centro, preparada pela mesma merendeira que deve nos auxiliar em julho. No cardápio: salada de tomate com pepino, salada de batata com cenoura, frango frito, macarrão com sardinha, purê de batata, arroz, feijão e farofa. Enchi
um prato tamanho família, comi tudo e ainda repeti. Ao me ver comendo com
gosto, alguém comentou: “para onde vai isso tudo que você come?” (como já
mencionei, não sou gordo). A resposta ficou na ponta da língua, mas resolvi não
fazer brincadeira alguma, simplesmente disse “meu metabolismo é bom”, e segui
nas garfadas. Comida aprovada. Vamos adiante.
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| Cozinha do Centro de Idosos |
De volta à pousada, Edneia e eu fizemos uma reunião de mais ou menos duas horas onde comparamos nossos cronogramas, adaptamos ações conjuntas e, com base na experiência da Edneia (3º Rondon) e nas conversas com a prefeitura, definimos boa parte de nossas atividades. Pouco mudou depois disso. O cronograma estava diante da gente, como um mosaico onde oficinas e horários foram cuidadosamente pensados em função do público alvo pretendido para cada uma delas.
Em
torno das 14:00 fomos levados em um carro da prefeitura para Iguapós e Mocós,
passando por uma paisagem como eu imaginava ser o agreste.
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| Imagens da visita à zona rural |
Visitamos
as escolas da zona rural onde faremos oficinas durante três manhãs consecutivas
em julho, conhecemos muita gente e tivemos a certeza de que muitas outras iremos
conhecer após a ampla divulgação do Rondon que já está sendo feita na cidade. A
estimativa é que mais ou menos quinhentas pessoas por dia participem das
oficinas realizadas na zona rural. A equipe UFSCar tem duas oficinas nesses
dias: Uma conversa sobre o uso de agrotóxicos(Gabriela, Marcela e Paulinha) e Oficina com Agricultores - Agregando valor em produtos e
utilizando sangue de matadouro e cacto palma para fazer adubo(eu, João,
Michaela e Rodrigo). Os demais membros, nesses e em outros dias, estarão nos
dando suporte e fazendo recreação com as crianças (presença certa e em grande
número no Rondon).
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| Sala de informática |
De
volta à Lagoa do Ouro, fomos direto conhecer a Escola Jandira Pedroso onde
iremos fazer boa parte das nossas oficinas. Fiquei bastante feliz com a escola,
as instalações, a localização e em especial, a sala de informática (teremos
duas oficinas nela, sob a coordenação da Gabriela) e o cine Igataua, sala de
projeções da escola onde possivelmente ocorrerá o Cine Rondon (pode ser que em
alguns dias ele seja feito ao ar livre, em ambiente aberto, talvez na praça
central).
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| Cine Igataua |
Já quase no final da tarde, para nossa completa surpresa, encontramos o Guimarães e o Pereira (da Escola de Aprendizes da Marinha), estavam nos fazendo uma visitinha e se certificando que tudo corria bem em nossa precursora. De volta à pousada, nos reunimos mais uma vez, Edneia e eu, discutimos mais nossos cronogramas, jantamos e nos recolhemos para nossos respectivos quartos.
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